Papeis…

Julho 19, 2011 at 3:47 pm (Extremos, Geral, Noite, Paixão)

As palavras ecoavam e preenchiam o espaço.
Uma voz inocente declamava…

“Bate leve, levemente “,
um gesto teu, firme, moldando a minha tez,
“como quem chama por mim “,
o riso teu, firmando a minha condição,
“Será chuva? Será gente? “,
lenta e repetidamente o ar foge-me dos pulmões,
“Gente não é, certamente e chuva não bate assim “,
o vazio do abandono preenche o meu olhar…

Abandono, sentimento, entrega, dor…
Trevas preenchem a pureza.
A escuridão instala-se e o peso dos sentimentos precipita-me o chão.
Prendem-me… Soltam-se… Submisso, abandonado ao impacto.

A entrega total à luz, absorvido completamente pelas trevas
O riso… A chama… E o papel incendeia-se, muda.
O grito abafa a inocência e a declamação continua.

“É talvez a ventania: “
Brusca e violentamente prendo-te as mãos.
“mas há pouco, há poucochinho, “
Sussurro o teu nome num murmúrio demente,
“nem uma agulha bulia “
e com a seda da escuridão envolvo os teus olhos
“na quieta melancolia “
Envolvo o teu corpo, forçando-o em posição
“dos pinheiros do caminho… “
Murmuro o vento do desejo, expondo-te à luz.

Cada mão segura o teu ímpeto, fixando o tempo,
Sibilos ecoam pela vastidão das palavras,
roçando asperamente na tua tez,
afastado as incertezas, apresentando a passagem.

Um dedo, um polegar, uma mão, um punho…
todos escrevem a violência do desejo, com o som da tua intimidade.
A tua penitência preenche a ardência do meu beijo, moldando o silêncio.

E no fim, não há mais papeis…
Envolvo-te e preencho-te
E no fim …
“E uma infinita tristeza, “
“uma funda turbação “
“entra em mim, fica em mim presa. “
“Cai neve na Natureza “
“e cai no meu coração. “

Excertos in “Balada da neve” – Augusto Gil

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Sem tempo…

Junho 8, 2011 at 1:17 am (Geral)

Acordei com uma lágrima que me descia o rosto
Lentamente traçando os contornos, desenhando-me o sentimento.
O calor de uma mão no meu rosto, tentando desfazer o tempo

Acordei hoje numa noite de insónia que me apertava o peito,
Que me arrancava a alma, perfurando-me os olhos, silenciando o frio
Que me entorpecia os membros, que me afagava a voz.

Só queria acordar, deste dia em que o tempo acabou
Só queria sentir a tua mão no meu rosto,
Dar-te o meu calor, dar-te a minha vida.

Só queria acordar para sentir o teu sorriso,
Só queria sentir e reconfortar-me no teu olhar
Mais um dia, mais uma vez, mais uma eternidade

Mas o tempo não parou, e eu não acordei.
O tempo não parou quando rezei,
O tempo não parou quando implorei!

O tempo não parou, mas eu parei.
Parei no momento em que estavas lá
Parei no teu sorriso, no teu olhar.

Hoje não acordei,
Hoje não rezei.
Hoje não implorei…

Hoje senti.
Hoje o tempo parou.

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Um oceano numa gota.

Junho 7, 2011 at 11:54 pm (Noite, Saudade)

Gota a gota a vida junta-se na nascente, crescendo lentamente. Um fio ténue começa o seu caminho, descendo da montanha.
Pelo caminho o fio aumenta, e por onde passa absorve sentimentos, experiências e cresce…
O fio torna-se um braço, e o percurso muda. A suave descida transforma-se, e o que era simples, enche-se de zonas acidentadas mas faz tudo parte da descida.

O braço cresce e pelo caminho junta-se com outros braços, até que um dia, um braço diferente dos outros lhe dá um corpo, e juntos, unos, continuam a descida.
O corpo cresce, e fortalece-se. Acalmias e rápidos e a vida continua, descendo o leito.
Fortalecido e cheio de amor, gota a gota outro fio nasce do seu corpo, e lentamente, flui a seu lado.
Juntos o corpo cresce, aprendendo, moldando o leito na descida. E novamente o processo repete-se, forte e repleto de amor, gota a gota, outro fio nasce, e acompanha-os a seu lado.
Juntos ao corpo, os fios crescem e juntos ganham força e união.
Crescem e um dia separam-se em afluentes próprios, desenhando mais ramos no leito da vida.

O tempo passa e o leito fica irregular. Pedras vindas da montanha, atingem o corpo, agitando-o, e lentamente ele começa esmorecer.
Primeiro um e depois o outro, o leito dificulta a sua passagem, a sua união. Mais pedras caem, e estas estreitam os braços. A viagem torna-se mais turva, e o percurso mais sinuoso.
Os afluentes juntam-se, tentando dar mais consistência ao corpo, juntando a força, juntando o amor.
O corpo contrai-se, e lentamente sofre. Os afluentes apertam, mas o dano não é reparável.
Lentamente desce o resto do seu curso, fraco e instável, mas sempre acompanhado.

No fim todos desaguam no mesmo mar, no fim da montanha, onde estarei à tua espera. Terminaremos a viagem juntos, e guiar-te-ei na passagem.
Um dia de cada vez, gota a gota, fazendo um oceano.

Apenas o amanhã.

Apenas nós.

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A paixão do amor.

Janeiro 28, 2010 at 7:27 pm (Noite, Paixão) (, , , , , )

Hoje lua reina soberana, impondo o seu encanto.
A luz executa as sombras torneando o corpo.
O reflexo dela preenche-me, submergindo-me no desejo.
E o seu corpo respira orquestrado pela noite…

Hoje ela…
É o sol que me ilumina de manhã, a brisa que me refresca no verão.
É o ar que eu respiro, o calor que me aquece.
É a realidade que me afecta, a chuva que me arrefece.
É o dia da minha noite.

Hoje, ela sou eu…
Hoje, ela és tu…

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Uma noite anunciada

Abril 27, 2009 at 4:41 pm (Noite, Saudade)

Um dia como os outros e uma noite anunciada.
Sento-me a teu lado, e ouço…
a tua respiração, o teu calor.
Agarro a tua mão e abraço os teus dedos.
Sinto a tua dor…

Centenas de vezes murmuro o meu amor…
Para te alimentar, para te aquecer, para me esquecer.
Esboças um sorriso, enchendo-me o coração.
Ouço o teu olhar dizer palavras sem voz
gravando-as na minha alma.

Seguindo o tempo, a noite segue o dia, o frio segue o calor.
Sento-me a teu lado, e ouço…
O silêncio do tempo, o frio do teu abraço.
Os teus olhos não mais falam, apenas o silêncio, apenas o vazio
Sinto a minha dor…

Sinto a minha dor.

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Palavras.

Fevereiro 12, 2009 at 12:11 pm (Geral, Manha, Paixão, Saudade) (, , )

Nunca te disse.
Nunca te disse.
As palavras ficam sempre no caminho, presas num sargaço de emoções e receios.
Tento dizer-te…

O meu olhar grita para ti num pedido de auxilio, prendendo as lágrimas nas garras do orgulho.
Olho para ti e vejo-te…
Olha para ti e sinto-te…
Olho em redor e sinto o muro crescer, protegendo-me do resto, de ti.
Tento dizer-te…
Tenho que te dizer!

Tenho que te dizer.
Dizer que te adoro.
Que gosto do modo como me complementas, como os teu olhos sorriem na minha presença.
Que gosto de como idade não passa aos teus olhos, de como a idade não passa aos meus olhos.
Do toque da tua pele, do teu toque na minha pele.
Dos filhos que me deste, do filho que me vais dar.
De ti!

De como gosto de ti.
Gosto de ti.
De ti.

Apenas Palavras.

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Sentido – Cinco

Outubro 23, 2008 at 9:25 am (Paixão) (, , , )

O nevoeiro cobre o teu corpo, ocultando-te.
Sinto o irisar dos teus pelos nos meus lábios enquanto percorro o teu corpo quente.
Subindo vagarosamente, ilumino os teus sentidos.
O teu gosto toma conta de mim.
Domina-me.
Resisto!

Continuo o meu percurso, seguindo o meu desejo, o teu desejo…
Palavras quentes desenhadas pela língua, abrem caminhos esquecidos no tempo, recordando as minhas promessas.
Ao meu toque revelas-me o caminho, oferecendo-me o teu néctar…
Vejo gotas, qual orvalho oferecendo-se à manhã, estendendo-se no meu percurso.
Sigo-as.
Sorris.

Delicadamente acolho-as no meu palato, movendo a língua preguiçosamente na tua intimidade.
Deuses guerrearam por sabores inferiores.
Agarras-me o cabelo, puxando-me para ti.
Sinto-te.
Continuo-o o meu percurso sinuoso, saboreando todo o caminho.
Escuto ao longe um bater rápido de um coração apaixonado.
Rapidamente aproximo-me, paro!
Inebriado pelo seu som hipnótico, repouso no seu eco.
Resisto!

Num ultimo sopro de paixão, navego até aos teus lábios.
Apaixonadamente amo-os, saboreando as tuas promessas, saboreando-te…
Perco-me…
Dominas-me.
Rendo-me…

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Sentido – Quatro

Setembro 5, 2008 at 11:35 am (Geral)

De olhos vendados, guias-me num labirinto de sentidos.
Os teus toques subtis vão-me guiando por entre um emaranhado e emoções.
Paras.
Sentido-me perdido sem o teu toque tento alcançar-te, sem sucesso.

Toque.

Sinto as tuas mãos percorrem suavemente o meu rosto… O meu pescoço… As minhas costas…
Descendo sinuosamente, os teus dedos descrevem promessas.

Sinto.

O calor do teu toque irradia na minha pele, abraçando-me…
Abraças-me.
Sinto a tua pele, os teus seios, a tua paixão…
Dedos percorrem o meu peito, beliscando-me.
Tento escapar, e sinto a tua voz no meu pescoço, fazendo promessas numa língua que não percebo mas entendo.

Seduzido.

Retiras a minha venda e contemplo todo o esplendor da tua aparência mediterrânica.
Estendo a mão e sinto o alvo da tua tez, a paixão dos teus lábios, a textura dos teus cabelos …
Por uma eternidade perco-me nos teus olhos…
Atraído pelos teus lábios, comungo o teu desejo.
O som de uma campainha irrompe o nosso abraço.

Telefone.

Abro os olhos e atendo.
Ontem.
Só.

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Sentido – Três

Setembro 3, 2008 at 2:53 pm (Noite, Paixão) (, )

A noite irrompe num turbilhão de sons eclipsando o dia, esvanecendo-o.
Esvoaçando por entre a sinfonia de caos, o som cristalino da tua voz restaura a ordem aos meus sentidos.
Partilhas comigo palavras de desejo, de paixão, do futuro…
Respondo, mas esta funde-se na sinfonia, abafando as minhas promessas.

Como choques entre galáxias, o fogo de artificio sobrepõe o caos, envolvendo-o num aperto fatal, restaurando a ordem.
A paixão da sinfonia dá lugar ao respeito do silencio.

A noite é una.

O som cristalino da tua voz rasga o seu tecido, pendendo-me à sua teia, seduzindo-me qual Tágide.
A teia completa o seu abraço.
Sinto os teus lábios silenciarem os meus gestos, soterrando a minha suplica.

Uma lágrima.
Um aperto.
… Sou teu.

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Sentido – Dois

Agosto 28, 2008 at 4:15 pm (Manha, Saudade) (, , )

E ela aparece como uma promessa anunciada, salpicando tudo em volta.
Envolvendo-nos lentamente, a chuva acaricia o nosso redor.
Suavemente os aromas começam a conquistar-nos, até que…

Trovão!
E tudo à nossa volta se eclipsa, ficando apenas a sedutora fragrância do enxofre, preenchendo-nos.

Terra…
Como uma trepadeira preguiçosa, o seu aroma molhado expulsa o agreste Trovão seduzindo-nos com o seu tom…

Erva.
Apaixonada pela chuva começa a libertar-se, tomando conta da Terra.
Sinto o seu corte recente…

Rosas.
Como uma caricia, envolve-nos, adocicando-nos os sentidos.
Fecho os olhos e sinto as suas cores, fundindo-se numa paleta de aromas…

Inebriado pela vida, começo a sentir…
Lentamente o teu aroma invade-me, dominando-nos.
Memorias da tua tez, dos teus cabelos, dos teus lábios…
Sinto a tua presença, o teu calor…
Estás aqui!

Abro os olhos e chove.
Lágrimas…

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