Papeis…
As palavras ecoavam e preenchiam o espaço.
Uma voz inocente declamava…
“Bate leve, levemente “,
um gesto teu, firme, moldando a minha tez,
“como quem chama por mim “,
o riso teu, firmando a minha condição,
“Será chuva? Será gente? “,
lenta e repetidamente o ar foge-me dos pulmões,
“Gente não é, certamente e chuva não bate assim “,
o vazio do abandono preenche o meu olhar…
Abandono, sentimento, entrega, dor…
Trevas preenchem a pureza.
A escuridão instala-se e o peso dos sentimentos precipita-me o chão.
Prendem-me… Soltam-se… Submisso, abandonado ao impacto.
A entrega total à luz, absorvido completamente pelas trevas
O riso… A chama… E o papel incendeia-se, muda.
O grito abafa a inocência e a declamação continua.
“É talvez a ventania: “
Brusca e violentamente prendo-te as mãos.
“mas há pouco, há poucochinho, “
Sussurro o teu nome num murmúrio demente,
“nem uma agulha bulia “
e com a seda da escuridão envolvo os teus olhos
“na quieta melancolia “
Envolvo o teu corpo, forçando-o em posição
“dos pinheiros do caminho… “
Murmuro o vento do desejo, expondo-te à luz.
Cada mão segura o teu ímpeto, fixando o tempo,
Sibilos ecoam pela vastidão das palavras,
roçando asperamente na tua tez,
afastado as incertezas, apresentando a passagem.
Um dedo, um polegar, uma mão, um punho…
todos escrevem a violência do desejo, com o som da tua intimidade.
A tua penitência preenche a ardência do meu beijo, moldando o silêncio.
E no fim, não há mais papeis…
Envolvo-te e preencho-te
E no fim …
“E uma infinita tristeza, “
“uma funda turbação “
“entra em mim, fica em mim presa. “
“Cai neve na Natureza “
“e cai no meu coração. “
Excertos in “Balada da neve” – Augusto Gil