Uma noite anunciada
Um dia como os outros e uma noite anunciada.
Sento-me a teu lado, e ouço…
a tua respiração, o teu calor.
Agarro a tua mão e abraço os teus dedos.
Sinto a tua dor…
Centenas de vezes murmuro o meu amor…
Para te alimentar, para te aquecer, para me esquecer.
Esboças um sorriso, enchendo-me o coração.
Ouço o teu olhar dizer palavras sem voz
gravando-as na minha alma.
Seguindo o tempo, a noite segue o dia, o frio segue o calor.
Sento-me a teu lado, e ouço…
O silêncio do tempo, o frio do teu abraço.
Os teus olhos não mais falam, apenas o silêncio, apenas o vazio
Sinto a minha dor…
Sinto a minha dor.
Sentido – Três
A noite irrompe num turbilhão de sons eclipsando o dia, esvanecendo-o.
Esvoaçando por entre a sinfonia de caos, o som cristalino da tua voz restaura a ordem aos meus sentidos.
Partilhas comigo palavras de desejo, de paixão, do futuro…
Respondo, mas esta funde-se na sinfonia, abafando as minhas promessas.
Como choques entre galáxias, o fogo de artificio sobrepõe o caos, envolvendo-o num aperto fatal, restaurando a ordem.
A paixão da sinfonia dá lugar ao respeito do silencio.
A noite é una.
O som cristalino da tua voz rasga o seu tecido, pendendo-me à sua teia, seduzindo-me qual Tágide.
A teia completa o seu abraço.
Sinto os teus lábios silenciarem os meus gestos, soterrando a minha suplica.
Uma lágrima.
Um aperto.
… Sou teu.
Sentido – Um
A escuridão absorve-me, abraçando-me, estendendo-me ao infinito.
Violentamente um relâmpago alvo estilhaça-me os sentidos, cegando-me.
Nessa infinita fracção de segundo vejo-te…
Choras.
A escuridão absorve-me de volta.
Observo desesperadamente o meu redor em busca de uma presença, de uma centelha, de ti…
Relâmpago!
Sentada na cama a olhar para mim, observas-me.
Vejo o vermelho nos teus olhos…
Cor.
Escuridão.
Relâmpago!
Vermelho.
Os teus olhos.
Lágrima…
Escuridão!
De volta, os sentidos moldam a realidade.
Lembro-me…
De ti, de nós, do relâmpago.
Escuridão.
Lembro-me…
Choro.
Presente…
Como todas as coisas, o dia chega ao fim.
Contemplando o ocaso, sinto o peso da vida esvoaçar para longe.
A brisa acaricia-me como um ultimo sopro e carrega-me no seu colo…
Tudo perde significado, tudo perde objectividade, tudo se perde…
O dia funde-se com a noite, o passado com o futuro, luz com a escuridão, apenas um, uno…
Uno…
Fomos e seremos, mas o presente ilude-nos, afastando-nos.
O brilho da centelha funde-se com a escuridão, reflectindo o vazio no teu olhar.
Ontem a chuva ensurdecia os nossos actos, tentando adiar o presente…
Mutuamente excluímos o passado e apagamos o futuro, juntos, uno…
Vazio.
Silencio sobrepõe palavras, lágrima sobrepõe raiva e o vazio sobrepõe…
Vejo as pessoas aproximarem-se, cada vez mais perto, sinto-as…
Fecho os olhos e a brisa murmura-me promessas.
E num breve instante tudo termina.
Não há mais som, luz, presente… Apenas vazio, uno…
Vazio.
Para ti…
O calor devasta a cidade, causando…
Sentimos o desconforto suar pela nossa pele, colando-nos os trajes, eclipsando a nossa vontade.
Sentimo-nos desvancer, o prazer, a paciencia… serem baixas na luta pela sanidade.
Transformamo-nos…
Limites desaparecem, e de um certo modo também nós.
O tempo funde-se, passando apenas a existir.
A tua voz soa distante, ecoando apenas no meu silencio dilacerador.
Vejo-te tentar, o meu silencio.
Vejo-te lutar, o meu silencio.
Desistir…
O apatico silencio instala-se, afastando-nos.
Vejo a tua lágrima congelar a tua emoçäo, abandonando-nos, desistindo.
Volto no tempo que parece congelado.
Entro e tudo parece abrandar, desprovido de cor.
Vejo, qual farol, o vermelho espalhando-se pela agua, contaminando-a com a tua vida…
Focos de cor nos teus pulsos expiram um ultimo sopro, diluindo-se na eternidade.
Abro a minha boca e grito, preenchendo o vazio com o silencio.
A lágrima consome o resto de minha humanidade, toldando-me o semblante.
Se o tempo existisse…
Eu podia…
A ti…
Memoria.
Sentado na cadeira no quarto ouço a chuva acariciar as árvores.
A escuridão da noite rodeia-me, cegando-me para a realidade.
Relâmpago!
Um clarão de luz verte pela janela, revelando-te a mim.
Nunca te tinha observado enquanto dormias.
Por um breve momento vejo o teu corpo estendido, os lençóis negros de seda, o teu cabelo…
Este preguiçosamente cobre-te a face, o pescoço, escondendo os teus segredos do meu olhar.
Relâmpago!
Outro clarão, a luz reveladora.
Revelando a tua face, os teus lábios, a tua silhueta debaixo do lençol…
Observo-os abrirem sincronizadamente com a respiração preguiçosa do teu corpo, movimentando os lençóis, revelando-me as tuas promessas…
Aproximo-me de ti, deitando-me a teu lado.
Gentilmente, com as costas da mão, acaricio o teu rosto, o teu pescoço, o teu lado.
Relâmpago!
Vejo o seu reflexo nos teus olhos, chamando por mim.
O beijo, quando os meu lábios se juntam aos teus numa promessa muda, trocando votos enquanto te aconchego junto a mim.
O lençol de seda desliza lentamente pelo teu corpo, tentando-me…
Sigo o seu rasto com os meus lábios, desenhando os seus contornos sinuosos com a ponta da minha língua. O teu pescoço, o teu seio, a tua barriga, as tuas coxas…
Gemes…
Trovão!
Os meus sentidos acordam!
Sentado na cadeira no quarto.
Tu não estás aqui…
Nocturnal Light
O dia esvanece, levando consigo o último raio de luz, trazendo as sombras esguias.
Tento manter-te no meu olhar, mas a escuridão rouba-te de mim…
Grito… Por ti, acordando a lua do seu repouso.
Lentamente esta espalha o seu manto ofuscante sobre as tuas sombras, devolvendo-te ao meu olhar, retornando ternura à minha alma…
A sua luz cobre a minha tentação, revelando o teu desejo…
Lentamente deslizo a minha mão pelos teus pés, seguindo as tuas coxas, encontrando tuas costas…
A sua luz acompanha os meus movimentos como se dançasse comigo… Dançando para ti…
Acaricio-te lentamente o rosto, despertando os teus olhos…
Observo o luar iluminando-os, lentamente revelando-me a tua alma…
Doce e amarga… Alguma tristeza, uma lágrima… Deslizando no teu rosto…
Aproximo-me, toco os teus lábios… Passo os meus dedos por eles, lendo as suas palavras…
Sinto a tua inquietação… E abraço-te firmemente, trazendo-te para perto de mim, envolvendo-te, sonhando-te…
E caindo nos teus braços, sinto a luz da lua afastar-se devolvendo-nos às sombras…
Humanidade…
Rebolo incessantemente na cama sem que lhe encontre posição.
Impacientemente sento-me, e observo a escuridão lá fora.
Levanto-me… Passadas rápidas precipitam-me para a janela, procurando…
Procuro uma razão lógica para tudo, tentando fazer nexo da realidade.
Abro os olhos, mas nem sempre pensamos… Dor…
O frio da noite dilacera os rasgos do vidro,
arrefecendo o sangue que se esvai juntamente com a minha sanidade.
Sinto a raiva aumentar, escuridão dá lugar à cegueira,
o punho cerrado expulsa os vidros.
Sinto-me estranhamente familiar, sinto-o tomando conta de mim.
Nada mais existe. Não o sangue a pingar, não a noite gélida, não a humanidade…
Apenas a dor, adormecendo os sentidos, despertando a raiva!
E eis que sinto, sinto os teus dedos nos meus cabelos, puxando-me para ti.
Olho-te nos olhos, não os vejo, não te vejo.
Sinto os teus lábios, o seu calor, este a ser sugado pela minha raiva, assustando-te, afastando-te…
Apenas dor, corrompendo.
Apenas dor, acordando.
Apenas dor…
Ontem…
Ontem…
Distraidamente desço a rua tentando-me aconchegar do nevoeiro…
Lentamente começo a ouvir sons familiares…
Tento seguir o som no meio da neblina , deixando a lua alumiar o meu caminho..
Mais rápido o som, mas rápido sinto a neblina…
Procuro em volta… Vejo-te…
Vejo-te a conversar, trocar ideias, partilhar emoções…
Observo os teus lábios mexer em unissuno com os dele…
Tocando-se.. Partilhando paixões, sonhos…
Uma lágrima desliza acutilantemente pelo meu rosto,
congelando rapidamente, partilhando o seu estado com o meu coração.
Lentamente movo-me para trás, deixando o nevoeiro envolver-me…
Procuro o seu reconforto… o seu calor gélido…
Distraidamente começo a descer a rua aconchegando-me na neblina…
Ontem…
Sombras…
Acordei…
Olhando para o teu lado, descubro-as…
Observo-as movimentarem-se timidamente sobre o teu corpo, brincando com ele…
Vejo-as ocultarem a luz, definindo detalhes, revelando beleza.
Aproximo-me…
Toco suavemente o teu rosto, percorro os teus lábios, desenho um sorriso.
Sinto as tuas costas…
Nelas deslizo os dedos, alternando a luz, iluminando as sombras…
Crio detalhes.
Sinto-te…
Lentamente aproximo o meu rosto e sinto o teu calor.
Partilho a minha respiração, afagas-me o cabelo, guiando-me nos teus lábios.
Lentamente percorro-os com a língua, sentindo os teus desejos.
Recebo as tuas promessas, partilhando as minhas.
Sinto-te…
Envolvo o teu corpo abraçando-o por trás…
Beijo suavemente a tua orelha…, o teu pescoço…, a tua nuca…
Preencho o teu seio com a minha mão, deslizando-a lentamente…
Em uníssono com o teu corpo, movimento suavemente os meus dedos no teu ventre, descrevendo os meus sentimentos…
Sinto-te…
O sol desponta no horizonte…
De olhos entreabertos vemos as sombras a movimentarem-se languidamente pelos nossos corpos, fugindo da luz…
Banhados então por esta, aquecemos…
Esquecemos…