Uma noite anunciada
Um dia como os outros e uma noite anunciada.
Sento-me a teu lado, e ouço…
a tua respiração, o teu calor.
Agarro a tua mão e abraço os teus dedos.
Sinto a tua dor…
Centenas de vezes murmuro o meu amor…
Para te alimentar, para te aquecer, para me esquecer.
Esboças um sorriso, enchendo-me o coração.
Ouço o teu olhar dizer palavras sem voz
gravando-as na minha alma.
Seguindo o tempo, a noite segue o dia, o frio segue o calor.
Sento-me a teu lado, e ouço…
O silêncio do tempo, o frio do teu abraço.
Os teus olhos não mais falam, apenas o silêncio, apenas o vazio
Sinto a minha dor…
Sinto a minha dor.
Palavras.
Nunca te disse.
Nunca te disse.
As palavras ficam sempre no caminho, presas num sargaço de emoções e receios.
Tento dizer-te…
O meu olhar grita para ti num pedido de auxilio, prendendo as lágrimas nas garras do orgulho.
Olho para ti e vejo-te…
Olha para ti e sinto-te…
Olho em redor e sinto o muro crescer, protegendo-me do resto, de ti.
Tento dizer-te…
Tenho que te dizer!
Tenho que te dizer.
Dizer que te adoro.
Que gosto do modo como me complementas, como os teu olhos sorriem na minha presença.
Que gosto de como idade não passa aos teus olhos, de como a idade não passa aos meus olhos.
Do toque da tua pele, do teu toque na minha pele.
Dos filhos que me deste, do filho que me vais dar.
De ti!
De como gosto de ti.
Gosto de ti.
De ti.
Apenas Palavras.
Sentido – Dois
E ela aparece como uma promessa anunciada, salpicando tudo em volta.
Envolvendo-nos lentamente, a chuva acaricia o nosso redor.
Suavemente os aromas começam a conquistar-nos, até que…
Trovão!
E tudo à nossa volta se eclipsa, ficando apenas a sedutora fragrância do enxofre, preenchendo-nos.
Terra…
Como uma trepadeira preguiçosa, o seu aroma molhado expulsa o agreste Trovão seduzindo-nos com o seu tom…
Erva.
Apaixonada pela chuva começa a libertar-se, tomando conta da Terra.
Sinto o seu corte recente…
Rosas.
Como uma caricia, envolve-nos, adocicando-nos os sentidos.
Fecho os olhos e sinto as suas cores, fundindo-se numa paleta de aromas…
Inebriado pela vida, começo a sentir…
Lentamente o teu aroma invade-me, dominando-nos.
Memorias da tua tez, dos teus cabelos, dos teus lábios…
Sinto a tua presença, o teu calor…
Estás aqui!
Abro os olhos e chove.
Lágrimas…
Para ti…
O calor devasta a cidade, causando…
Sentimos o desconforto suar pela nossa pele, colando-nos os trajes, eclipsando a nossa vontade.
Sentimo-nos desvancer, o prazer, a paciencia… serem baixas na luta pela sanidade.
Transformamo-nos…
Limites desaparecem, e de um certo modo também nós.
O tempo funde-se, passando apenas a existir.
A tua voz soa distante, ecoando apenas no meu silencio dilacerador.
Vejo-te tentar, o meu silencio.
Vejo-te lutar, o meu silencio.
Desistir…
O apatico silencio instala-se, afastando-nos.
Vejo a tua lágrima congelar a tua emoçäo, abandonando-nos, desistindo.
Volto no tempo que parece congelado.
Entro e tudo parece abrandar, desprovido de cor.
Vejo, qual farol, o vermelho espalhando-se pela agua, contaminando-a com a tua vida…
Focos de cor nos teus pulsos expiram um ultimo sopro, diluindo-se na eternidade.
Abro a minha boca e grito, preenchendo o vazio com o silencio.
A lágrima consome o resto de minha humanidade, toldando-me o semblante.
Se o tempo existisse…
Eu podia…
A ti…
Mãe
Mãe.
Nasceu o sol e tu com ele, brilhando a seu lado aumentando o seu calor.
Lentamente observo o crescimento do teu ser, resplandecendo de energia e amor.
Observo-o crescer. Crescer em outro ser. Crescer da fusão em união.
Crecer amado e brilhante, sentindo o teu calor a protege-lo, aquece-lo, dando-lhe forma…
O teu calor cresce, amadurecendo o teu amor, espalhando-o pelos que te rodeiam.
Brilhas, brilhas intensamente, guiando-me no meu caminho, orientando o meu ser, fazendo-me crescer.
Como o sol lá no alto, o teu brilho deu-nos mais, brilhou tão intensamente que dele outro ser criou.
Pequeno, frágil, amado… tambem a ele lhe deste a tua dádiva, fazendo-o crescer, brilhar, amar.
Sentimos o teu calor, a tua luz, guiando-nos, fazendo-nos maiores. Luz.
Luz dessa chama que te consome, que te dá esse calor que espalhas, que nos aquece o coracao.
Vejo-te ainda a brilhar tão intensamente como no dia em que nasceste e espalhando esse manto de luz para nos proteger.
Luz. A luz certa comeca a tremer… Tremer o seu manto.
Nós a quem tanto nos aqueceste, observamos… Notamos a chama termula… E sem exitar estendemos o nosso manto,
tambem este teu, para completar a tua chama.
E ela brilha novamente plena, plena de forca e calor, estendendo o seu calor, tocando-nos, abraçando-nos…
Observamos todo o seu explendor, brilhando sempre mais…
Obrigado!
Mãe.
Filho.
Filho.
Ventre da Mãe, semente do Pai.
Filho.
Do Homem e da Mulher.
Meu filho, nosso filho…
Com a dor trouxeste a alegria.
Com a dor trouxeste o amor.
Frágil e indefeso sorrias para nós confiante da tua força, do nosso amor.
O corpo muda com o toque da vida e cresces.
Lentamente levantas-te dando passos para o futuro, trazendo receio.
Falas.
Chamas a mulher, Mãe.
Chamas o homem, Pai.
Chamas o mundo… E para ele, vives.
Aproximas-te do futuro a cada passo.
Um riso, uma caricia, uma lagrima, uma palmada!
Longo e sinuoso é o caminho, dúvidas e incertezas, prazeres e alegrias.
Nosso filho.
Iluminamos o caminho, distinguindo o bem e o mal.
Partilhando a alegria e a tristeza.
Estamos aqui para te ver…
Para te sentir…
Para ti.
Estamos aqui para te libertar.
Filho.
Nosso Filho…
Memoria.
Sentado na cadeira no quarto ouço a chuva acariciar as árvores.
A escuridão da noite rodeia-me, cegando-me para a realidade.
Relâmpago!
Um clarão de luz verte pela janela, revelando-te a mim.
Nunca te tinha observado enquanto dormias.
Por um breve momento vejo o teu corpo estendido, os lençóis negros de seda, o teu cabelo…
Este preguiçosamente cobre-te a face, o pescoço, escondendo os teus segredos do meu olhar.
Relâmpago!
Outro clarão, a luz reveladora.
Revelando a tua face, os teus lábios, a tua silhueta debaixo do lençol…
Observo-os abrirem sincronizadamente com a respiração preguiçosa do teu corpo, movimentando os lençóis, revelando-me as tuas promessas…
Aproximo-me de ti, deitando-me a teu lado.
Gentilmente, com as costas da mão, acaricio o teu rosto, o teu pescoço, o teu lado.
Relâmpago!
Vejo o seu reflexo nos teus olhos, chamando por mim.
O beijo, quando os meu lábios se juntam aos teus numa promessa muda, trocando votos enquanto te aconchego junto a mim.
O lençol de seda desliza lentamente pelo teu corpo, tentando-me…
Sigo o seu rasto com os meus lábios, desenhando os seus contornos sinuosos com a ponta da minha língua. O teu pescoço, o teu seio, a tua barriga, as tuas coxas…
Gemes…
Trovão!
Os meus sentidos acordam!
Sentado na cadeira no quarto.
Tu não estás aqui…
Só…
Com o raiar do dia desperto os meus sentimentos,
lentamente entreabro os olhos, deixando entrar a manha…
Esta ilumina languidamente os teus contornos,
revelando os teus segredos, expondo a minha paixão.
E naquele breve instante eu sei… Sei porque estou ali.
Estico preguiçosamente o braço, sentindo-te… Sentindo-me.
Sinto o teu ser iluminar o meu, completando-o.
Sinto-os unirem-se, comungando a alma.
Abro os olhos e vejo-te. Vejo-me…
E toda a eternidade nesse breve instante.
Eu sei…
Nocturnal Light
O dia esvanece, levando consigo o último raio de luz, trazendo as sombras esguias.
Tento manter-te no meu olhar, mas a escuridão rouba-te de mim…
Grito… Por ti, acordando a lua do seu repouso.
Lentamente esta espalha o seu manto ofuscante sobre as tuas sombras, devolvendo-te ao meu olhar, retornando ternura à minha alma…
A sua luz cobre a minha tentação, revelando o teu desejo…
Lentamente deslizo a minha mão pelos teus pés, seguindo as tuas coxas, encontrando tuas costas…
A sua luz acompanha os meus movimentos como se dançasse comigo… Dançando para ti…
Acaricio-te lentamente o rosto, despertando os teus olhos…
Observo o luar iluminando-os, lentamente revelando-me a tua alma…
Doce e amarga… Alguma tristeza, uma lágrima… Deslizando no teu rosto…
Aproximo-me, toco os teus lábios… Passo os meus dedos por eles, lendo as suas palavras…
Sinto a tua inquietação… E abraço-te firmemente, trazendo-te para perto de mim, envolvendo-te, sonhando-te…
E caindo nos teus braços, sinto a luz da lua afastar-se devolvendo-nos às sombras…
O fim de um mundo.
Ontem.
Quase sentia o calor, juntando-se ao meu, alimentando-te.
Um mês.
Um beijo nos teus lábios encerraram as minhas promessas.
Ontem.
Sonhei o teu toque, percorrendo o meu corpo, acordando o desejo, revivendo a dor.
Um mês.
Vi o teu sorriso iluminando o olhar, elevando-me com ele, fazendo-me contigo.
Ontem.
Chorei e senti o frio gélido da lágrima dilacerar a minha alma
Um mês.
Um mês ontem, que te levaram de mim, que vi o sorriso fugir dos teus olhos, a vida dos teus lábios, o teu calor de mim…
Ontem um mês, que aquele som ecoou pela noite e entrou na minha vida, preenchendo-a, ocupando-a, destruindo-a!
Um mês.
Ontem.
Hoje.
Vejo o teu sorriso, sinto os teus lábio, banho-me no teu calor.
Hoje.
Morri.